Do “estufado” ao “aléron”: calinadas automobilísticas
É inevitável. Elas estão por todo lado. Chegámos a qualquer evento de automóveis e começamos logo a ouvi-las, vindas de diferentes lados, especialmente quando alguém abre o “capom”. Sim, porque a palavra capot (ou capô) à portuguesa, tem este parente que soa como um galo de Freamunde.
O “capom”, essa espécie não classificada da fauna automóvel, é responsável por cobrir uma quantidade de elementos mecânicos que não podem de forma alguma estar a descoberto. Desde logo o “destruidor”.
Sim, porque a corrente a mais – sobretudo se não for travada por uma “ralé” também pode gerar grandes cataclismos, como por exemplo, avariar a “sofagem”. Não sei como foi que a “chauffage” – chofagem na derivação portuguesa – foi ganhar um nome que parece relacionado com “sofá”. Até porque, sabemos bem, um automóvel não tem sofás, mas sim estofos, normalmente “estufados”, o que, como se sabe, não é recomendável por causa das doenças cardiovasculares. Mas pior é quando o “estufado” inclui também as “cartelas”, em vez das quartelas.
Voltemos, no entanto, à mecânica, onde nada é mais importante do que o próprio “metor”, e toda a sua complexidade, que começa logo no topo, com árvores de “canes” a comandar as “bábulas”. Há muita coisa a acontecer na zona da “colaça” - que nos dicionários é culassa, mas que há muito parece ter renegado a sua origem francesa em “culasse”.
Mas tudo é muito mais fiável desde que deixamos os carburadores e os platinados. Já não é preciso “abrir o ar” para segurar o “relantim” - que eu ia jurar que era ralenti – nem é preciso limpar “jigléres”, que às vezes são “giclês”, outras “giglers”, tudo por culpa da palavra original ser um estranho gicleur. Por outro lado, passamos a ter coisas mais complicadas de entender, como os “ejectores”.
Mas as dores de cabeça – as mecânicas e as do léxico – não se acabam no motor, porque se continuarmos a descer, por vezes encontramos um “chárrion”, ligado a elementos da suspensão e transmissão, amortecedores, braços e, ali perto, “violetes”, que outras vezes são “bieletas”, uma melhor derivação dessa francesa de seu nome “biellette”, uma palavra que gasta mais consoantes do que um TDI gasta óleo.
É também evidente que se houver folgas nos casquilhos e apoios, os problemas podem sentir-se para lá da suspensão. Pode haver vibrações transmitidas à transmissão, mais concretamente ao “sector” das velocidades, que presumo que seja a secção onde deveria trabalhar o selector.
E se tudo o resto falhar, esperemos ao menos que nada vacile na travagem, nem sequer um “bombite” – termo que mais parece uma doença do que uma peça automóvel como o bombito.
E se nesta derrapagem lexical, nem os travões nos valerem, a probabilidade dum acidente é real. Se o carro for novo, vale a pena pôr tudo como estava, de origem e com material homologado, em vez do “amolgado”, que já não faz falta.
Se o carro for velho, também pode dar-se à liberdade de fazer uma reparação a seu gosto. Colocar umas grelhas de refrigeração, daquelas com muitas “alhetas” que não vão dar a lado nenhum e quem sabe até instalar um “áleron”.
Se no fim das modificações não sobrar muito orçamento para finalização e “pulimento”, o melhor é mandar pintar tudo em preto “malte”.


