75, o último “macho Alfa”
Nos anos 80, em que a igualdade de género não era o prato do dia, um homem comprava revistas de automóvel e nela via fotos de outro homem, de farto bigode, em contrabrecagem, e decidia na hora a sua compra. Chegava a casa com um Alfa 75, chamava os filhos e a mulher e mostrava, orgulhosamente, a sua nova máquina, cheia de virilidade. A mulher exclamava: “Que carro feio! Não tens gosto nenhum...”, o marido perguntava “O que é o jantar?”, e a conversa terminava ali.
Eram tempos em que o automóvel de família podia ser também uma prenda para quem tinha de o conduzir. Claro que essa prenda tinha espinhos, como uma qualidade de construção questionável, uma depreciação fulminante e uma ou outra luz irritante no, então vanguardista, painel de controlo. Reza a lenda que nada disso importa quando se passa para o volante. Especialmente 40 anos depois, quando o analisamos com o “desconto” que um clássico merece.
Evolução na adversidade
Os Alfa Romeo 105/115, nas versões Giulia, GT e GTV, Spider e Berlina, foram um tremendo sucesso, tornando-se no primeiro produto verdadeiramente global da marca. Alfa Romeo era agora sinónimo de engenharia de ponta, qualidade e performance. Contudo, os lucros não condiziam com a boa reputação.
Na tentativa de continuar a espremer o sumo da mesma laranja, o Giulietta 116 usava muito da mesma receita mecânica, mas com a virtude da arquitectura transaxle, ou seja, com a caixa de velocidades montada junto ao diferencial.
Esta solução, usada pela primeira vez pela marca nos Alfetta de Grande Prémio dos anos 40, foi também usada na berlina e coupé Alfetta de 1972, modelo do segmento superior. O chassis do Giulietta era essencialmente o mesmo, mas os motores usados eram inicialmente de 1.3 e 1.6 litros e posteriormente chegariam os 1.8 e 2.0, para além do Turbodelta de 172cv.
A suave transição para a modernidade
Em 1985, nos 75 anos da Alfa Romeo, era lançado o 75. A plataforma era essencialmente a mesma do Giulietta 116, mas com um design totalmente novo, também da autoria de Ermano Cressoni. A par dos tradicionais “bialbero” 1.6, 1.8 e 2.0 litros alimentados por carburador, o 75 receberia também os motores de 2.5 V6 e 1.8 Turbo, ambos de injecção.
Em 1987 chegavam os motores 3.0 V6 e o 2.0 Twin Spark, que significavam um passo relevante na modernização do modelo.
O último suspiro da independência
À data em que o 75 foi lançado, já quase nenhum construtor escapava às tendências de normalização da indústria e, sobretudo, às economias de escala dos grandes grupos industriais. A ideia romântica de uma marca generalista feita a pensar em entusiastas, tornava-se inviável.
Para os mais tradicionalistas (ou realistas?), a magia da Alfa Romeo desaparece com a integração no grupo Fiat.
O primeiro grande modelo da Alfa Romeo após a integração no grupo Fiat foi o 164. Um automóvel esteticamente arrojado, ainda com motores interessantes, mas assente numa plataforma partilhada com mais três construtores.
O sucessor do 75 seria ainda mais Fiat. Recorrendo à plataforma Tipo 3, apesar do esforço de Ercole Spada, bastava um pouco de nevoeiro, ou uns óculos sujos, para ser possível confundi-lo com um Tempra.
Há que ser justo: em muitos aspectos importantes para o quotidiano, os modelos posteriores ao 75 eram todos automóveis melhores, mas enquanto clássicos, não têm metade do encanto dum 75.
“Para o homem que sabe o que quer”
Este era o slogan do perfume Denim, que marcou uma geração e que afirmava uma certa atitude que hoje parece quase em desuso, mas que se aplicava também ao Alfa 75, um modelo profundamente masculino.
Aquilo que muitos ainda hoje consideram uma carroçaria feia, era, indiscutivelmente, um desenho de vincada personalidade. Mais do que os detalhes, toda a forma do 75 era diferente dos outros automóveis do segmento, com a traseira muito elevada a marcar um estilo de design que viria a influenciar outras marcas.
O friso plástico ao longo da carroçaria, os guarda-lamas salientes, o escape ao centro, eram detalhes que contribuíam para um estilo muito próprio e agressivo. Não seria capaz de o rotular como um automóvel bonito, mas ao fim de 35 anos, quando vemos um destes carros no meio do trânsito, percebemos o quanto é especial e másculo.
Há uma frase recorrente nos meios “alfistas”, que diz que “os verdadeiros alfistas, guiam berlinas”. É, seguramente, uma afirmação sujeita a diversas interpretações, que tem duas justificações possíveis: a primeira é a de que o verdadeiro alfista está menos preocupado com a performance do que com a estética; a segunda é a de que o verdadeiro alfista é aquele que mantém a paixão viva para lá dos verdes anos e, por isso, inevitavelmente, tem de a conjugar com as obrigações familiares.
Com menos “doçura” estética, mas com tanta ou mais agressividade, as berlinas Alfa Romeo têm a fama de ser uma espécie de desportivos “à paisana”.
Corpo de culturista, voz de soprano
O 75 3.0 V6, movido pelo bom, velho Busso de oito válvulas. O exemplar em causa é um America, diferenciando-se facilmente pelos pára-choques com “harmónio”, obrigatórios pela legislação dos EUA. Contudo, de forma bizarra, o America é uma versão exclusivamente Europeia, com alguns detalhes do modelo americano, por questões de economia de escala. Não faz sentido, nem precisa de fazer. É um Alfa Romeo.
Outra das características que distinguem os 75 americanos (comercializados nos EUA sob o nome Milano) é a colocação do depósito de combustível numa posição mais subida e recuada, o que retira cerca de um terço à capacidade da bagageira, detalhe presente nos America.
Mais tarde, com o face-lift, foi introduzida uma nova grelha, iluminação verde no painel de instrumentos e farolins em tom vermelho, entre outrso detalhes.
Dar à chave no V6 é quase uma experiência religiosa, tal é a guturalidade e qualidade do som emitido pelo motor. Por muito anos que passem, continua a ser um dos mais belos ruídos automóveis de sempre.
Neste modelo, basta acariciar o acelerador para arrancar com ligeireza. Nos baixos regimes este motor é dócil como o de nenhum outro 75, e tem uma resposta muito pronta ao acelerador. Desengane-se quem espera brutalidade do V6. Pelo contrário, é muito “sedoso” ao longo de toda a faixa de rotação, sem nunca ter um ponto de pico evidente.
A caixa, bem escalonada, permite usá-lo em pleno sem nunca se sentir falta de potência, mas à parte da sonoridade, o motor Busso não é muito mais excitante que o Turbo. É sim, mais dócil e disponível, o que permite ter mais precisão no uso da potência.
A suspensão do V6 ajuda bastante à tarefa. Mais baixo, é mais preciso e rápido a entrar em curva do que outros 75 e a subviragem é facilmente evitada se não se abusar do acelerador, mas é preciso ter em conta que o motor 3.0 é mais pesado, o que influencia o equilíbrio.
Depois de entrar na curva, é tudo uma questão de coragem: é possível sair de forma limpa ou em sobreviragem, porque este motor permite todas as opções.
A distância entre eixos faz com que as reacções não sejam muito bruscas, mas a lentidão da direcção, exige a capacidade de antecipar muito bem o que vai acontecer.
Quando se proporciona ultrapassar as 4000rpm e o motor passa de tenor a soprano, a experiência transforma-se. De familiar, o 75 passa a ser um exótico. Ainda que meigo, é um lobo em pele de cordeiro.
Este exemplar
O Alfa Romeo 75 V6 America aqui anunciado, faz parte da oferta do nosso cliente Auto d'Época e é um raro exemplar nacional com cerca de 120.000km. Segundo explicação do nosso cliente, graças ao reduzido uso, foi possível manter a pintura e interiores originais, além duma condição de conservação verdadeiramente especial.
Recentemente - menos de 1500km - foi alvo de uma revisão profunda que inclui o sistema de travagem, o ar condicionado, o tecto de abrir eléctrico e a caixa de velocidades, assim como a normal substituição de todos os fluidos do motor, filtros e correia de distribuição e a Auto d'Época disponibiliza aos interessados uma lista detalhadas das intervenções efectuadas.
Este 75 tem como equipamento opcional o tecto de abrir eléctrico, estofos em pele, ar condicionado, lava-faróis e faróis de nevoeiro e, actualmente, monta pneus Goodyear Eagle Ventura 195/60R 14.
Alfa Romeo 75 3.0 V6 America
Anos de produção: 1987 a 1992
2959cc
Diam x Curso: 93×72.mm
188cv SAE às 5800rpm
250Nm às 3000rpm
Injecção Bosch L-Jetronic
6 cilindros em V, posição longitudinal dianteira, árvore de cames à cabeça, 12V
Carroçaria monobloco em aço de quatro portas
4330mm de comprimento
2510mm entre eixos
1300kg de peso
Suspensão dianteira independente, de triâng. sobrepostos, barra de torção e barra est.
Suspensão traseira de eixo DeDion, ligação Watts, molas helicoidais e barra est.
Travões dianteiros de discos ventilados, c/ servofreio
Travões traseiros de disco
Trasmissão traseira
Caixa manual de cinco velocidades
222km/h de V. Máxima
7,5s dos 0 aos 100km/h

















