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O que as marcas procuram, é o que nós já temos.

O cenário apocalíptico da indústria automóvel europeia, está a empurrar os construtores para o baú das memórias. Há falta de ideias, ou pura insegurança?
Hugo Reis
21 de out. de 2026

Terminou há dias o Salão Automóvel de Paris, um clássico entre os eventos de automóveis. 

Contrariando uma tendência recente, esta edição do Salão de Paris está a ter muita atenção mediática. Não apenas porque os salões estão a recuperar alguma popularidade, mas muito pelo “show” da Renault e da Stellantis. 

Duma assentada, a Renault apresentou vários concept: um coupé inspirado no desenho de Robert Opron para o Alpine A310, um potencial regresso dos monovolumes inspirado pelo desenho do Espace original e ainda, pasme-se, um terceiro EV que repesca as formas do 8, com a roupagem Gordini, mas com apenas duas portas.

A Stellantis, por seu lado, entrou numa espiral nostálgica, com a Fiat a apresentar uma reinterpretação modular do Multipla e ainda um exequível, mas estranho, 500 Multipla; a Peugeot lançou um “remake” do Peugeot RCZ (não será cedo demais?) em versão eléctrica e um novo Peugeot 205 T16 (em que o “T” será talvez de “tomada”...) um novo Citroën 2CV eléctrico e um Alfa Romeo que tem quatro portas, mas formas de coupé, e vestígios do traço de Ercole Spada.

A urgência do passado
É bastante evidente que os construtores europeus se aperceberam que o único grande trunfo que lhes resta face à ameaça chinesa é o carisma. Mas o carisma só existe quando uma marca recorre aos seus traços identitários, que a maioria delas abandonou há uma ou duas décadas, pelo menos. Por isso, o design retro de 2026, já não é como o design retro dos anos 90 e 2000, que vimos em modelos como o New Mini e New Beetle, os BMW Z3 e Z8, o Jaguar S-type ou o Ford GT. Esta nova vaga de retro design é muito mais exagerada, na medida em que as fontes de inspiração estão, na maioria dos casos, a uma distância temporal muito maior.

Memórias que não existem e formas que não persistem.
O primeiro desafio desta vaga de retro design, assenta no facto de haver poucos potenciais compradores que tenham memórias ou laços emocionais relativamente aos modelos evocados. Nós adoramos o Renault 8 Gordini, mas um comprador de 30 ou 40 anos de idade, com uma cultura automóvel normal e que não seja entusiasta dos clássicos, dificilmente entenderá o porquê de recuperar uma das silhuetas menos elegantes da história do losango. 

Por outro lado, não há quem não saiba o que é um 2CV ou porque foi importante. Ainda assim, é difícil é justificar o uso da silhueta de caracol, 90 anos depois de ter nascido numa óptica de “função acima da forma”.  Não havia grande intencionalidade estética no 2CV original e sendo certo que o carinho popular lhe trouxe charme, não há justificação técnica ou ergonómica para guarda-lamas separados no século XXI.

Além do mais, o interior minimalista deste concept, só seria vagamente exequível se a UE avançasse com a legislação relativa à anunciada nova classe de automóveis urbanos, os tais “kei-car” europeus que tardam em tornar-se reais.

Quanto ao 205 T16, será difícil perceber o interesse do exercício. Além das proporções paquidérmicas, não se entende porque há-de um veículo eléctrico eliminar os bancos traseiros quando não há necessidade de um motor central...

O retro que vale a pena
No meio de todo este fervor saudosista, há ideias que merecem aplauso. Tentar fazer renascer os monovolumes, é algo que faz todo o sentido, não só porque o conceito nunca perdeu validade, mas especialmente porque as plataformas eléctricas - onde todo o “hardware” está no fundo do veículo -, favorecem a modularidade e o aproveitamento do espaço do habitáculo, dispensando o “nariz comprido” dos SUV.

O mesmo se pode dizer do novo A2, um modelo que nunca esteve errado, que só agora lhe vê reconhecido o mérito e que com isso ganha uma segunda vida, já no mundo electrificado.

Em comum, estes dois modelos têm o mesmo que o novo Renault Twingo, por exemplo: vão buscar sua influência a um tempo não tão distante. Um tempo em que o “template” do automóvel actual já estava definido e em que a maioria dos modelos já respondia às mesmas necessidades dos dias de hoje: espaço, dimensões contidas, conforto, segurança e frugalidade. 

Por isso, talvez fizesse mais sentido a Citroën ressuscitar o AX em vez do 2CV e a Fiat repensar o Uno em vez da centésima variante do 500.

Há carisma sem nostalgia
Nós, os que temos ou apreciamos clássicos, já temos aquilo que as marcas procuram. O que em boa parte dos casos nos leva a desejar ou a adquirir um clássico, não é nostalgia. É a legitimidade e carisma dos modelos do passado. 

Os modelos que mais nos marcaram e que mais marcaram a história, foram aqueles concebidos a pensar no futuro. Até no futuro o mais longínquo possível. Não havia nostalgia num DS, nem mesmo num Carocha original, muito menos num Countach ou num Twingo. 

A própria Fiat conseguiu provar ao mundo que é possível criar modelos modernos com identidade, sem cair no saudosismo: o Grande Panda, é inegavelmente um Panda na filosofia, mas dificilmente alguém pode acusá-lo de ser refém do retro-design. 

Este é apenas um exemplo de que há outros caminhos. A indústria Europeia não tem uma crise de criatividade, tem antes uma desorientação estratégica, em que as reacções são lentas e as decisões demasiado óbvias. 

A culpa é mais das políticas do que dos gestores: ninguém pode tomar só boas decisões em cenários de pânico.

O que é evidente é que, seja através duma atitude “retro” mais realista, seja através da pura e genuína inovação, os produtos Europeus podem continuar a singrar com base na identidade. É aproveitar enquanto os chineses parecem não querer, ou não conseguir, encontrar esse caminho. 

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