Miura aos 60 anos. A minha experiência.
Fotos: Rui Reis
Não creio que tenha existido na história outro automóvel mais consensual do que o Lamborghini Miura, igualmente adorado por aqueles que já eram velhos para o conduzir em 1966 e pelos que ainda são demasiado novos para o conduzir em 2026.
É o mais partilhado de todos os amores platónicos dos entusiastas de automóveis, e eu não sou excepção mas, por um dia, consumei a relação e embora não esteja certo de que seja possível transmitir a intensidade das sensações, tentei.
Aqui ficam curtos excertos de um longo artigo que escrevi em 2022 para a edição 250 da Topos & Clássicos (que pode comprar aqui), quando as emoções ainda estavam frescas. .
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Nem sei como tudo aconteceu tão rápido. Foi apenas há minutos que cheguei e já estou a subir a rampa do Caramulo. Agarro o volante do Miura SV com a mesma expressão confiante de um miúdo no primeiro dia de escola. Enquanto obedeço aos gestos dos fotógrafos, surge a silhueta perfeita do outro Miura pelo canto do olho e tenho de me posicionar milimetricamente se não quiser criar uma embaraçosa e muito cara “carga de ombro” ao André Villas-Boas.
Segundos depois, fazem-nos sinal para ultrapassar o “carro-câmara”. O André avança e o som do V12 abafa tudo à volta. Faz-me arregalar os olhos e acelera-me, ainda mais, o coração. Só depois me lembro que é suposto seguir atrás dele, então acelero também e, estranhamente, sou apanhado de surpresa pelo som vindo do “meu” Miura! Afinal o V12 está ali, a um palmo da minha nuca. Pelo retrovisor vê-se os carburadores a abrir e a desencadear aquela sinfonia perfeita. E o som entra por nós. Pelos ouvidos, pelos poros. Ressoa nos órgãos, entranha-se no cérebro. É uma injecção de cafeína, uma entrada num universo paralelo. É um sonho a acontecer...
Começo a pensar se não deveria ter escrito parte da peça antes de conduzir o Miura, para não ser contaminado pelas emoções. Mas o que é o Miura, senão uma máquina de fabricar emoções? Como se pode descrevê-lo verdadeiramente senão com alma? Aliás, mesmo quem nunca tenha experimentado um, alguma vez consegue ter uma relação desapaixonada com o modelo?
Vim ao Caramulo precisamente para guiar o SV. Interessava-me perceber qual era a visão que a equipa tinha para o Miura, muito mais do que constatar as eventuais fragilidades dos modelos iniciais. Contudo, não podíamos perder a oportunidade de juntar dois Miura, algo muito difícil de se conseguir em Portugal e penso que inédito em qualquer publicação nacional. Para nossa alegria e dos leitores, o André Villas-Boas aceitou trazer o Miura S até ao Caramulo (aonde já tem vindo por altura do Motorfestival). Desta vez, no entanto, veio por estrada.
Com humor, dizia-me: “Não sabia se havia de vir a rolar, mas ontem fomos lá à garagem, ‘falámos para ele’ e portou-se bem, por isso decidi vir a guiá-lo.”
Este ritual de “fazer a corte” a um exótico italiano antes de decidir usá-lo, não é raro, sobretudo para quem não tem tempo para usar com a regularidade necessária. “Eu até vou usando, mas não é fácil sair com à rua com um carro destes no centro do Porto, pelo excesso de atenção que gera. Acabo por usar mais o 2.7 RS.”
Quanto à viagem, a realidade é outra: “Faz-se muito bem. É suficientemente confortável e a caixa é longa. Permite fazer boas velocidades de cruzeiro sem esforço.”
O Miura S do André é um regalo para os olhos. Restaurado na Cremonini Classic com o objectivo de ficar perfeito, está 100% fiel à especificação original, como atesta o certificado do Polo Storico Lamborghini.
Este exemplar foi originalmente vendido em França, como se deduz pelas ópticas amarelas, o que proporciona um agradável contraste com o “Rosso Acrilico” da carroçaria que, por sua vez, resulta em pleno com o belíssimo habitáculo em tons de azul. Uma especificação pouco óbvia, mas muito elegante.
Curiosamente, um dos mais recentes proprietários foi também um conhecido coleccionador português, antes de passar pelo Reino Unido, onde Villas-Boas o adquiriu.
O SV do Museu do Caramulo praticamente dispensa apresentações, de há tantos anos ser conhecido dos entusiastas. O chassis #4852 foi um dos muitos Lamborghini que passaram pela colecção do Sheik Al-Thani. A obsessão do Emir do Qatar pelo modelo é tal, que chegou a ter sete Miuras em simultâneo. Uma repetição que só pode fazer sentido na cabeça de quem tem três mulheres...
Em 1989 o Dr. João Lacerda adquiriu-o através do famoso comerciante suíço Phillipe Fournier e, como era seu hábito, trouxe-o a rolar de Genebra até ao Caramulo. Muito metódico, o Dr. Lacerda guardava um caderninho em cada um dos seus automóveis com os registos dos quilómetros de cada viagem e anotações, como necessidades de melhoria ou consumos, um hábito mantido pelos netos.
Na primeira linha do caderno do Miura, pode ler-se: “26 de Setembro de 1989. Chega ao Caramulo, desde Genève. +/- 3000km. 4 litros de óleo. Consumo à média de 150km/h, +/- 14,5 litros aos 100km.”
Mais abaixo, depois de vários registos de curtas viagens, uma nota interessante: “Regresso de Lisboa. Motor impecável, a 200km/h durante 66km.” Bons tempos!
Não há espaço na Serra do Caramulo para verificar a veracidade dos 290km/h de velocidade máxima anunciada - o que me dispensa de admitir que também não haveria coragem – mas há dois ou três segmentos de estrada em que é possível exercitar o motor do SV até à quarta velocidade. À entrada de um deles, engreno primeira, com o característico “clac-clac” do selector. Arranco e vou aumentando a pressão no acelerador suavemente. Até às 3500rpm o motor é muito sereno, a partir daí, muda de carácter. Torna-se agudo, apressado. Nunca parece em esforço e sobe até para lá das 6000rpm com uma vivacidade impressionante. Não há como apressar as passagens de caixa. É preciso um ligeiro compasso de espera porque o selector leva o seu tempo a fazer a viagem entre relações. Tal como na música, em que os silêncios são determinantes e medidos com exactidão, também estes intervalos entre cada “investida” do Miura são para respeitar. De segunda para terceira, o movimento da alavanca na grelha faz um som de fricção metálica que é estranhamente satisfatório e o ímpeto continua.
O Miura ganha velocidade como nenhum outro automóvel do seu tempo, de forma feroz e consistente. Onde a largura da estrada permitir, devora Porsches ao pequeno-almoço. Passaram 50 anos desde que este exemplar saiu da fábrica e a sua rapidez ainda impressiona. Os dados não mentem: os 4,8 segundos dos 0 aos 100km/h continuam a não ser um número vulgar nos dias que correm.
Mais surpreendente ainda é o facto de parecer bem agarrado à estrada, pelo menos nesta secção que tem bom piso, sempre a subir, e entrecortada por duas curvas em que é preciso reduzir. E reduzir é um prazer, graças aos pedais perfeitamente posicionados para o ponta-tacão e à subida instantânea de rotação a cada toque no acelerador. É tudo bastante intenso e exige concentração, mas é profundamente gratificante quando se encontra harmonia entre os nossos movimentos e as reacções da máquina. É preciso progredir com calma e sem apressar o ritmo de adaptação. Algo mais difícil de fazer quando eu e o André Villas-Boas seguimos em “formação”, para permitir aos artistas realizarem as fotos e vídeos a partir da beira da estrada. É importante dar alguma emoção ao momento e, para isso, é preciso castigar o pedal da direita...
Este segmento de estrada, com piso mais imperfeito, é marcado por algumas curvas rápidas. O Miura S segue à frente e fazemos o percurso num sentido, a ritmo razoável. No regresso, o André está, claramente, numa estratégia ofensiva. Pisa mais forte e, eu, com a devida distância, procuro igualar o ritmo para que passemos razoavelmente juntos pelas câmaras. Há uma sequência muito particular, feita em terceira, composta por uma esquerda a descer, logo seguida por uma direita a subir. Os stops do “Mister” piscam apenas por um segundo para depois “mergulhar” para a esquerda. Depois disso, nem pensar em voltar a travar. Tento não olhar demasiado para o Miura vermelho e concentro-me na minha trajectória e ainda bem, porque quando a suspensão faz a compressão antes da subida, há um daqueles momentos arrepiantes em que se sente o peso da traseira a querer desviar-se da linha de trajectória. Não há qualquer deslizar das rodas, mas instintivamente, endireito o volante de forma suave e rápida e mantenho a pressão no acelerador. O Miura sai suavemente da curva, sem perder a trajectória, mas “em bicos de pés”. Um medidor de ritmo cardíaco teria sido a mais interessante telemetria para este bocadinho...
Paramos ambos mais adiante e eu estou decidido a não dar parte fraca ao admitir que aquele momento foi desconfortável. Saímos dos carros, ambos com um sorriso e o André dispara:
- Aquele bocadinho ali... assusta!
- Ainda bem que admites! Estou mais aliviado por não ter sido só eu...
Em defesa do meu companheiro do dia, há que dizer que os pneus estreitos do S tornam a situação ainda mais delicada. Em minha defesa, há que dizer que tenho um pedaço menos de experiência com a máquina.
Em todo o caso, a conclusão a tirar é a mesma: o Miura não é um automóvel para principiantes e obriga sempre a uma abordagem cautelosa quando a estrada se torna exigente. É a 80% das capacidades do chassis que reside o verdadeiro prazer. Em situações em que se possa explorar o motor sem aflorar os limites da borracha ou dos travões. No entanto, há que dizer que este automóvel é muito mais do que um GT. Qualquer preconceito que pudesse ter pelo facto de lhe faltar “pedigree” desportivo, foi definitivamente afastado. O Miura pode não ter feito corridas, mas as corridas fizeram o Miura, e isso sente-se em todos os detalhes.
Ao fim do dia o João Apolinário pede-me que faça uma subida de todo o percurso apenas para registar o som do SV. “Claro que sim. É um prazer." E que prazer!
Lá em cima, no Caramulinho, o céu está a pôr-se alaranjado. A luz reflecte no topo dos guarda-lamas. O barítono que mora lá atrás faz o seu solo, enquanto, nas pontas dos dedos, o belíssimo volante vai contando a história de cada curva. As mãos relaxam, os últimos raios de sol aquecem-me a cara. É o zénite desta jornada. É tão perfeito que parece um filme. Aliás, vêm-me ao pensamento as notas de “On days like these”, a faixa da famosa sequência de abertura de “Italian Job”. A diferença é que esta estrada é melhor e este Miura também.
Não posso negar a sensação de alívio ao desligar o Lamborghini pela última vez, sabendo que tudo correu bem. Olho para ele, demoradamente, com serenidade. A partir desde momento, a nossa relação volta a ser platónica. Talvez por isso, ao contrário do protagonista da “Loucura”, não sinto necessidade de desfigurar o objecto da minha paixão para provar a profundidade dos meus sentimentos. Sei bem que gosto tanto do Miura pelo que ele é, como por aquilo que parece, e esse pensamento não me atormenta. Porque esse equilíbrio entre a emoção que as linhas sugerem e a emoção que deveras proporciona, é a essência do conceito de super-carro. Um conceito que nasceu com este modelo e que habita os sonhos dos entusiastas há mais de 50 anos.




















