Porsche 965, o super-911 que nunca existiu.
Aprovado em 1984, o 965 nasceu como um projecto ambicioso. A inspiração estética e técnica vinha diretamente do Porsche 959, com linhas suavemente evoluídas e soluções avançadas para a época — tração integral, aerodinâmica refinada e até a possibilidade de uma caixa de dupla embraiagem PDK, décadas antes de se tornar mainstream.
Tecnicamente, o plano era ainda mais ousado. O motor inicialmente previsto seria um seis cilindros boxer biturbo com cabeças de quatro válvulas e arrefecimento misto, apontando para cerca de 365 cv e velocidades acima dos 300 km/h.
Os primeiros protótipos confirmaram o potencial. Mais fácil de conduzir do que o 959, mas igualmente rápido, o 965 parecia cumprir a promessa: um supercarro utilizável, estável e tecnologicamente avançado — até em alta velocidade.
A engenharia não acompanhou a ambição
Como tantas vezes acontece, o maior obstáculo foi a incapacidade tecnológica para atingir as metas definidas.
O motor de 3.5 litros simplesmente não atingia os valores de potência pretendidos. Com um orçamento limitado, o 965 ficou preso entre a ambição e a realidade.
A Porsche ainda equacionou algumas alternativas, nomeadamente a adaptação do bloco V8 projectado por Mezger para a Fórmula Indy, transformando-o num V6 biturbo. Depois foi considerada a produção dum novo motor V8 posterior ao do 928, que seria partilhado com o projecto 989, um coupé de quatro portas que também nunca chegou a acontecer.
Nenhuma destas soluções parecia oferecer o equilíbrio certo entre performance, custo e viabilidade industrial.
1987: o golpe fatal
Se os problemas técnicos eram sérios, o contexto económico foi decisivo.
O crash financeiro de 1987 apanhou a Porsche num momento vulnerável. A marca tinha investido fortemente durante os anos de prosperidade e enfrentava agora uma queda nas vendas, especialmente nos modelos mais caros. De repente, um super-911 deixava de fazer sentido.
O novo responsável pelo desenvolvimento, Ulrich Bez, tomou a decisão pragmática de cancelar o 965 e seguir uma solução mais conservadora: desenvolver uma versão Turbo do 964 com base na mecânica existente, o motor 3.3. Só mais tarde surgiria o motor 3.6, utilizado em apenas 1437 unidades.
“Black Bomber”: o fantasma que sobreviveu
Apesar do cancelamento, o 965 não desapareceu completamente.
Pelo menos um protótipo sobreviveu — o famoso “Black Bomber”, um exemplar pintado de preto mate que escondia uma mecânica improvável: um motor V8 de origem Audi, utilizado em testes do sistema de refrigeração.
Este exemplar permanece hoje como uma curiosidade histórica, ocasionalmente exibido no museu da Porsche, um lembrete físico de um futuro que nunca chegou a acontecer.
E se tivesse avançado?
O mais interessante no 965 é perceber o que ele representava. Se tivesse chegado à produção (possivelmente com a designação 969), teria antecipado várias tendências que só décadas depois se tornaram norma:
– tração integral no topo da gama 911;
– suspensão adaptativa;
– caixa de dupla embraiagem;
– motor multi-válvulas com arrefecimento líquido, que só surgiria no 996, no fim dos anos 90.
Conclusão: o melhor Porsche dos que nunca existiram?
Mais do que um “911 Turbo evoluído”, o 965 era uma tentativa de redefinir o conceito. Ao introduzir a mudança tecnológica num modelo à parte da normal gama 911, teria sido possível abrir a mente dos entusiastas mais conservadores para os benefícios de tecnologias como o arrefecimento por água. Sendo certo que o sucesso comercial do 996 nos diz que quem queria mesmo um 911, nunca deixou de comprar por causa disso.
O Porsche 965 é um daqueles casos onde tudo parecia alinhado, na visão, tecnologia, ambição, mas em que as condicionantes adiaram alguns dos seus princípios por mais de uma década, o que acaba por ser um elogio a quem o imaginou.








