Ninguém está acima da Ferrari
Quero começar por dizer que não acho o Luce feio e isso é um problema.
Analisar o Ferrari Luce exige olhar para o contexto. Entender a marca e as pessoas que a fazem.
A Ferrari é uma marca diferente das demais, até mesmo dos seus concorrentes, seja pelo prestígio, seja pela criação de valor, seja pela fórmula de sustentabilidade, enquanto construtor independente.
Enquanto um normal fabricante trabalha com margens na ordem dos 5 a 10%, a Ferrari trabalha com perto de 25% de margem.
Apesar de vender hoje mais automóveis do que em qualquer momento da sua história, a marca trabalha numa lógica de contenção da oferta face à crescente procura, como uma forma de valorizar o produto em catálogo e no pós-venda, tornado um Ferrari exclusivo numa compra economicamente razoável, na medida em que retém ou, nalguns casos, aumenta de valor.
A Ferrari tem hoje como CEO Benedetto Vigna. Físico de formação, é creditado pela invenção do acelerómetro tri-axial, sensor que detecta e mede movimento e que permite algumas das mais complexas funcionalidades dos telemóveis, relógios, consolas de jogos, automóveis e muito mais.
O seu passado profissional fez-se, por isso, no campo da tecnologia.
Há poucos anos, numa entrevista, Vigna referiu que a electrificação era a melhor coisa que podia acontecer à Ferrari, pois abria imensas oportunidades criativas. Senti um arrepio ao ler aquela frase, confesso.
Para desenhar este novo e inédito Ferrari, a marca, que já não trabalha com carroçadores externos desde o extraordinário F12 Berlinetta de 2012, contratou os serviços de Johnny Ive e Marc Newson.
Ive, como explicámos no passado, é conhecido por ser o autor de todas as melhores criações da Apple, tendo algumas delas influenciado a forma como vivemos. Além do aspecto exterior de computadores pessoais, do iPHone e dos iWatch, Ive trabalhou nos interfaces, com resultados brilhantes que são referência para a indústria.
Marc Newson quase dispensa apresentações. É um designer de produto com uma obra que abarca imensas áreas, como calçado, relógios, cutelaria, louças, barcos, fogões, canetas, bicicletas.
Estes são os três nomes que tornaram possível o nascimento do Luce.
O Luce é um produto importante na estratégia da Ferrari. Pela primeira vez a marca pode ter na sua oferta um modelo que é verdadeiramente utilizável no dia-a-dia. Um cliente Ferrari que não queira dispensar o toque de Maranello no quotidiano, sem restrições ou incómodos, poderá ver no Luce a resposta.
Embora num cenário menos provável, potenciais clientes, mais apaixonados por tecnologia, mas igualmente adeptos da insígnia, poderiam encontrar aqui o seu primeiro Ferrari, estejam eles dispostos a pagar mais de meio milhão.
Num mundo pejado de super-milionários, tudo é possível e, em Maranello, devem ter feito bem as contas.
Só uma coisa pode deitar tudo a perder: se o produto for ridículo.
Tecnicamente, a receita parece válida, sem nunca ser excepcional. Hoje o que não falta são veículos eléctricos de mais de 1000cv, por isso a performance nunca seria um argumento diferenciador.
O ponto mais positivo é a relativa leveza, já que 2250kg pode ser considerado um peso baixo para um EV deste género...
É muito provável que seja dos melhores EV de sempre na dinâmica e comportamento, mas tendo em conta o propósito deste veículo e o contexto de utilização, não estou certo de que isso seja determinante.
O conforto e o prazer de condução serão argumentos fundamentais. O habitáculo confirma a sensação que já tinha ficado de que o ambiente de bordo seria visualmente agradável. Em alguns detalhes, com a devida distância, faz-me lembrar o interior do 456 GT.
Portanto, tudo estava no bom caminho até conhecermos a carroçaria e um desenho que, resumidamente, seria uma simples banalidade em qualquer construtor, mas num Ferrari é uma absoluta infelicidade.
Não tínhamos dúvidas de que o Luce seria uma espécie de SUV, com lugar para quatro ou cinco adultos. Ninguém ficou chocado com isso.
O que chocou o público foi o facto de o modelo ser um produto vincadamente LoveFrom (o estúdio de Ive e Newson), mas não ser claramente um Ferrari. Uma vez tapando-se o logo, poder ser qualquer coisa, de qualquer marca, de qualquer origem, com design americano.
Sublinhe-se que o Luce é o primeiro Ferrari desenhado sem intervenção dum estúdio ou designer italiano.
REJEIÇÃO DO TRADICIONAL EM TROCA DO QUÊ?
É evidente que este desenho pretende posicionar o Luce como um produto tecnológico, mas isso não explica a opção por um desenho pesado que não disfarça o enorme volume do modelo. A linha de perfil é inegavelmente semelhante à do Jaguar i-Pace, mas em tudo o resto é francamente pior.
É a falta de identidade que mais incomoda. É a total ausência do ADN Ferrari no exterior. E quando se fala em ADN Ferrari não falamos de ir buscar inspiração ao passado, mas sim àquilo que é a essência da marca: o automóvel desportivo. Que emociona. O automóvel cuja dinâmica resulta da experiência na competição.
Eu não gosto do aspecto do F80, ou do 849 Testarossa, mas quando olhamos para ambos, vemos a essência Ferrari. E não tem sequer a ver com o tipo de automóvel, pois o Purosangue é também um SUV de quatro portas e quatro lugares, mas é indisfarçavelmente Ferrari.
O Luce é o contrário disso. O Luce tem muito de objecto tecnológico, tem muito de produto Apple, tem uma boa dose de Ford 021C, o concept de Marc Newson. O Luce não tem nada de Ferrari, nem quer ter.
A ideia que fica é a de que Ive e Newson se têm em tão boa conta que sentem que podem redefinir o que é um Ferrari. E a Ferrari, por sua vez, age de forma submissa, repetindo à exaustão o nome dos designers na comunicação, como nunca fez com Fioravante, Brovarone ou mesmo Manzoni.
Ive e Newson são designers geniais. Nas suas áreas. São nomes com muito significado no mundo da tecnologia e praticamente nenhuma expressão no mundo automóvel. Isso, por si só, não seria um problema, se a assinatura de ambos não se tivesse sobreposto à assinatura de Enzo. Ive e Newson não vêm um Ferrari como algo sagrado, mas é.
SE NÃO É PELA EMOÇÃO, É PELO QUÊ?
Sou o primeiro a achar que vale a pena quebrar ligações ao passado e que um Ferrari tem de ser vanguardista, mas um Ferrari tem também de ser um gerador de emoções. Um indutor de adrenalina.
Um Ferrari não pode ser só um produto de lifestyle. Não pode ser como um boné que, trocando o logo, pode ser o boné de outra marca.
Sim, eu sei que eu e alguns de vocês talvez não sejamos o público-alvo dum produto assim (dispensa-se a frase “mostra-me o teu Ferrari”). Mas nós – questões financeiras à parte – temos, em princípio, o mesmo gosto e interesses do público-alvo Ferrari. Era suposto conseguirmos gostar, ou pelo menos entender o novo modelo porque, convenhamos, só um produto aspiracional cativa o cliente Ferrari. Quando alguém compra um automóvel de Maranello, fá-lo por si, mas também pela admiração que recebe dos outros. Mas se o comprador que a marca pretende não obedece a esse padrão, então quem é ele? E porque compraria um Ferrari? E como diferencia este produto de outros?
Aliás, um dos principais problemas que encontro neste design é que, se fosse de um BYD ou dum Nissan, não iria merecer grandes comentários. Seria apenas mais um automóvel, no estilo de tantos outros que surgem com a mesma volumetria e detalhes semelhantes. Não seria considerado feio, nem bonito, nem tão pouco causaria qualquer surpresa. Não seria sequer uma nota de rodapé na história do design automóvel.
Benedetto Vigna diz que o veículo eléctrico é apenas um dos produtos duma gama que continuará a ter todo o tipo de motorizações, mas quer isso dizer que os eléctricos Ferrari serão todos radicalmente diferentes do resto da gama, ou que o resto da gama irá seguir esta linguagem de design?
A ATITUDE CAUTELOSA NO MEIO DO RISCO
É inegável que foi necessária audácia para tomar esta decisão tão radical de virar costas ao padrão estético Ferrari. No entanto, confundem-me alguns sinais de cobardia neste processo do lançamento. Note-se que houve mais “influencers” famosos do que jornalistas famosos na apresentação do Luce. É assim que se faz quando se tem medo de opiniões. Resultou, pois das pessoas que estiveram presentes na apresentação, apenas li comentários ora elogiosos, ora contidos.
Passa assim a sensação de que, dentro da mesma empresa, existem atitudes diferentes.
No meio de tudo isto, não faltam motivos para rir, como seria de esperar. Desde os especialistas que analisam a linguagem corporal de Hamilton e Leclerc, até cadeias de restaurantes que aproveitam para campanhas bem-humoradas.
Numa nota diferente, há também os amadores que querem provar que são capazes de entender melhor o espírito Ferrari do que a LoveFrom e os resultados levam-nos a pensar se não têm mesmo razão...
CONCLUSÃO
Muitas opiniões que li, vão no sentido de achar que nós, os “não-milionários”, não temos sequer de ter uma opinião, ou a ter, ela nada significa. Eu tenho sérias dúvidas disso porque acho que nós, os entusiastas, somos todos essencialmente o mesmo: temos olhos e um cérebro e comunicamos com base em códigos linguísticos nem sempre verbais, e obedecemos a percepções.
Pode sempre argumentar-se que este não é um Ferrari para entusiastas. É um argumento válido que, a ser verdade, é um péssimo prenuncio para a marca pois, a seguir-se apenas o caminho do dinheiro, Ferrari, “quo vadis”? O que é, e para onde pretende ir o Luce?













