O Jorge Paulo fica connosco.
Foi já há dois dias que estivemos nas cerimónias fúnebres do nosso amigo Jorge Paulo. O facto de só agora lhe prestar esta singela homenagem deve-se, talvez, a uma inconsciente dificuldade em aceitar a realidade.
É difícil conceber certos ambientes, provas e momentos sem a presença do Jorge, que sempre dávamos por garantida. É difícil pensar num Rallyspirit sem ele, é difícil pensar nas tertúlias sem ele, é péssimo pensar que o "balanço" do autoClássico na noite de domingo já não vai ser tão divertido como foi no ano passado. É difícil aceitar a falta das estórias, da ironia, do sorriso, da voz da experiência, da pastinha na mão e a camisa branca, imaculada.
O Jorge Paulo era meu amigo, mas não acho que ele faça mais falta a mim do que a outros. Faz falta a todos quantos gostam de automóveis, até àqueles que não o conheceram.
Porque a comunidade dos entusiastas é como um edifício, em que algumas pessoas são o cimento que a liga e que dá estrutura ao todo.
O telefone do Jorge Paulo abria todas as portas no mundo automóvel e fazia tudo acontecer. Não havia ninguém demasiado importante para não o atender e ajudar. E ao contrário do que é habitual, esta importância não se conquistou por força ou poder. Conquistou-se por empatia.
Sim, o Jorge era uma autoridade no mundo da competição, mas a forma como exercia a autoridade poderia servir como um manual para qualquer pessoa numa posição de poder, do mundo empresarial, à política. A “firmeza suave”, a absoluta fidelidade aos princípios, mas sem esquecer que do outro lado há um humano com quem é possível estabelecer uma ligação, é algo que só se consegue com uma extraordinária inteligência emocional.
A empatia é um tipo de riqueza que não se consegue quantificar, mas que “compra” carinho e amizades sinceras, como se fossem algo barato ou fácil de obter.
O Jorge Paulo cumpriu plenamente o seu papel na vida. Transmitiu conhecimento a novas gerações, deixou amigos e descendência. Acompanhou, de forma sofrida e dedicada, os últimos anos de vida da sua mulher.
Em contraste, partiu de forma fulminante no Rallyspirit, com as netas e uma grande parte dos seus melhores amigos por perto. Que nos sirva de algum consolo pensar que, se ele pudesse escolher, talvez não encontrasse melhor lugar de partida.
O Jorge Paulo entrou no mundo dos automóveis aos 11 anos. Cruzou-se com todos os pilotos e equipas que se possa imaginar. Foi peça fundamental da Diabolique, do Troféu Datsun, das 24H de Fronteira, dos Lisboa-Dakar, do Rali de Portugal, do Historic Endurance e Grupo 1, do MotorXperience e de tantos outros momentos, eventos e modalidades.
Com este percurso, marcou pessoas e deixou o nome bem gravado na história do automobilismo nacional, duma forma discreta, mas bem mais significativa e generosa do que a maioria dos protagonistas de primeira linha. Será sempre uma referência inapagável entre os conhecedores, que a cada momento surgirá numa nova conversa.
É assim, sem pedir ou exigir, que se conquista a definitiva imortalidade. Estarás sempre connosco, Jorge Paulo.








