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Tu adoras aquilo que dizes detestar.

O interior do Ferrari Luce foi revelado e a internet está em alvoroço. A internet está errada e a Ferrari é que sabe.
Hugo Reis
11 de fev. de 2026

Volta e meia, vem-me à memória aquele episódio do meu colega de trabalho, que sempre que via uma das nossas colegas entrar na sala, começava a murmurar adjectivos pouco graciosos e a revirar os olhos. A voz dela parecia quase criar-lhe uma mal-estar físico. Quando ela voltava a sair, ouvíamos dele as frases mais requintadas de depreciação duma mulher, incluindo comparações com equídeos, doenças e catástrofes naturais. Um dia, talvez por acaso, trocou com ela um sorriso de cortesia. Actualmente estão casados há já muitos anos e os miúdos estão crescidos. 

É parte da natureza humana desdenhar de tudo aquilo que não se pode ter, e inventar argumentos para justificar o injustificável. No caso dos dois protagonistas da história anterior, o que os afastava eram os respectivos parceiros. Assim que um deles saiu do caminho, tudo mudou de figura. A nós, entusiastas, o que nos separa de um Ferrari Luce é apenas o dinheiro. 

Um Ferrari eléctrico, que choque!
Sei que está a pensar que tenho o cérebro a trabalhar em dois cilindros, para estar a defender um Ferrari eléctrico, mas eu tenho argumentos para a minha aparente estupidez (ou parte dela).

Estou certo de que a Ferrari jamais será uma marca de automóveis eléctricos, até porque, por esta altura, já todos percebemos que o mercado dos automóveis desportivos e super-desportivos, continuará a depender do motor de combustão, da mesma forma que a alta relojoaria depende dos movimentos mecânicos. 

Dito isto, imagine que, além de gostar de Ferrari (e toda a gente gosta, mesmo os que dizem que não), é estupidamente rico. Lá na garagem estão o 296 GTB, um 812 GTS, ou tem um canto guardado para o F80, mas no dia-a-dia, tem de se deslocar na cidade, em reuniões, a supervisionar os negócios, a espalhar charme e por aí fora. Normalmente, alguém com esse perfil tem-se deslocado, nos últimos anos, de Tesla. 

Passada a novidade das criações de Musk, e já quase sem imaginação para alargar a carteira de investimentos, sente-se na necessidade de gastar mais algum, porque a vida são dois dias... talvez tenha feito o upgrade para um BMW iX M70 ou outra aberração do género. Talvez aguarde pelo imponente Cayenne eléctrico, que tem aquela fronha que só uma mãe pode amar, ou até tenha perdido totalmente a inibição e ande de Rolls Royce Spectre.

Nesse contexto, se a Ferrari lhe acenar com a possibilidade de ter um “daily” com cavallino, torna-se difícil dizer que não. Para a Ferrari, isso significa dinheiro relativamente fácil e significa também uma redução da média de emissões da gama, algo cada vez mais importante para poder continuar a fabricar super e hiper-carros.

No fundo, pode dizer-se que a decisão de fabricar um Ferrari eléctrico foi mais de Bruxelas do que de Maranello.

Afinal o problema é o habitáculo...
Embora muitos tenham ficado surpreendidos, a novidade desta semana não é a existência do Luce, pois já há um par de anos se sabia que vinha a caminho um Ferrari SUV e eléctrico. A novidade é mesmo a divulgação do tablier, consola e painéis de instrumentos. 

O aspecto dissonante do estilo a que a Ferrari nos tem habituado e, de resto, diferente de tudo o que existe no mercado, suscitou uma ruidosa reacção. A fúria gerada foi tal, que continuam a saltar botões de teclados um pouco por todo o mundo. Está tudo chocado e alguns estão mesmo furiosos! Furiosos por não gostarem do desenho do interior do Ferrari em que nunca vão entrar, porque não o podem comprar ou porque - numa versão oficial - nunca comprariam um Ferrari eléctrico.

“O Enzo está às voltas na tumba!”, clamam os ofendidos. “A Ferrari já não é o que era!”
Mas o que era a Ferrari? Automóveis que só andavam a direito, como o Testarossa? Habitáculos que se degradavam em poucos anos, como os 348 e 355? Ergonomias desastrosas como as dos 308 e 328?

Diga-se o que se disser, a Ferrari está num pico de forma. O design actual pode não nos agradar, pois está totalmente focado no futuro, sem concessões ao saudosismo, mas as vendas acontecem. O público está lá. São os profissionais das tecnológicas, os rapazinhos das bitcoin e fãs da F1 que só conhecem do "Drive to Survive". Tudo bem, desde que a marca não se esqueça de onde vem.

A Ferrari apostou em ciclos de produto muitos curtos e numa grande diversificação da gama, com bastante recurso a séries especiais que, de tantas que são, quase deixam  de ser especiais, mas que vendem como pãezinhos quentes, com lucros de brioche...

E o que mais nos devia alegrar é que os Ferrari já não são pecinhas frágeis, que se desmontam ao primeiro ímpeto do condutor. A fama de falta de qualidade está bem no passado e, sempre que surgem novos modelos, eles são consistentemente referenciais no comportamento dinâmico, na integração da tecnologia e na experiência emocional. 

A Ferrari está melhor do que nunca, nós é que nunca fomos tão rabugentos.

As imagens da polémica
Olhei para as imagens a primeira vez e fiquei, como qualquer um, boquiaberto. Cheguei a pensar que não eram reais. Depois pestanejei com força e, antes de reagir, olhei com mais atenção. Pareceu-me ver algo naquelas imagens que não via há muito: um volante! Era mesmo um volante, daqueles só com as buzinas, três braços e um formato quase redondo. Ainda por cima pareceu-me que tinha braços em alumínio, como os volantes que eu por vezes compro sem sequer ter carro para eles. Era um volante à moda antiga, com um aro fino, sem Alcantara ou LEDs.

À frente tinha uma coisa ainda mais estranha: mostradores redondinhos, com grafismos de aspecto retro, provavelmente digitais - como têm de ser para compilar toda a informação necessária - mas “em bonito”. Lá pelo meio, há mesmo um relógio analógico, que alguém se apressou a dizer que parecia saído dum forno. 

Há um painel de “infotainment” central, porque já ninguém vive sem eles num automóve novo, por muito saudosistas que sejamos. Só que este é pequeno e move-se. Dispensava-se aquela barra que mais parece um poleiro para caturras, ou um varão daqueles dos WC para pessoas com mobilidade reduzida mas, de resto, ainda não tinha encontrado nada de chocante.

Faltava-me uma “memória descritiva” que explicasse o que estava a ver e não tardaram a aparecer vídeos explicativos. Um jornalista da EVO explicou detalhadamente que os materiais podiam ser escolhidos com acabamentos diferentes, mas eram todos eles nobres: alumínio maquinado e vidro compõem grande parte dos elementos em que os ocupantes tocam e o movimento e as sensações tácteis de cada botão foram alvo de meses de estudo para serem especialmente satisfatórias. Interessante...

Seguiram-se os créditos: os responsáveis por aquele design são Jony Ive e Marc Newson. 

Jony Ive vem directo dos estúdios da Apple, o que permite aos cépticos frases brilhantes como “A Ferrari de hoje em dia é uma empresa de telemóveis”. No entanto talvez estejam a escrever isto num iMac, ou num iPhone, ambos dos objectos mais bonitos e funcionais de entre todos os que fazem parte do nosso quotidiano. Ive desenhou os históricos iMac G3, Power Mac G4 e iMac G4. Desenhou o primeiro iPod e o primeiro iPhone e o Mac Mini em que escrevo estas palavras. Ive, com o suporte de Steve Jobs, mostrou que os nossos amigos computadores não tinham de ser caixotes de chapa com arestas cortantes, cheios de cotão no ventilador e amarrados por um autêntico esparguete de cabos, fios e outras complicações. 

Mais importante talvez, é o facto de Ive ter trabalhado também no conteúdo, ou seja, nos “interfaces” extraordinários dos diversos aparelhos que concebeu. Ainda hoje, nenhum outro sistema consegue superar o funcionamento minimalista, intuitivo e elegante dos dispositivos Apple. E é esse minimalismo e a rara harmonia de forma e função que Ive pretende trazer para a Ferrari. Ao contrário do que a piada fácil sugere, esta nova abordagem tornou o habitáculo da Ferrari menos parecido com um telemóvel ou uma consola de videojogos. Já que temos de viver com tecnologia e ecrãs nos automóveis, o objectivo de Ive é tornar a interação não apenas natural, mas prazerosa.

A ele juntou-se Marc Newson, um dos mais famosos designers industriais da sua geração. Juntos, estes dois amigos de longa data formaram a empresa de design "LoveFrom". Eu sempre gostei das formas orgânicas e futuristas das muitas peças de mobiliário que criou, mas a obra vai muito para além dos interiores. Newson já desenhou calçado, relógios, cutelaria, louças, barcos, fogões, canetas, bicicletas, aeronaves e... o Apple Watch. 

O corpo de obra fala por si e Newson também não é novo no design automóvel, tendo criado o retro-futurista concept car Ford 021C.


É tudo o que os insatisfeitos pediam
Pouco importa quão longas são as páginas de LinkedIn dos autores envolvidos se o resultado for absurdo, desligado da realidade ou dos valores da marca, mas o que é que vemos mesmo quando olhamos para o interior do novo Luce senão uma procura dum regresso à simplicidade? Passamos a vida a reclamar dos painéis digitais do tamanho de pranchas de surf dos Mercedes-Benz, ou da ausência de botões físicos dos Tesla, e dos volantes que temos de agarrar como se fossemos bonecos Playmobil (como dizia o Bruno Pinho no nosso podcast) e agora que alguém tenta um contraponto, estamos todos zangados? 

Escrevam o que eu digo: os mais críticos ainda serão os maiores fãs do novo design. 

Vá, não sei deixem envelhecer cedo demais e gritem comigo: "Viva a Ferrari, viva o design!"

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