50ª Retromobile: a luz que não esmorece. - Parte 2
(Leia a parte 1 aqui)
As exposições das marcas
Um dos andares do pavilhão 7, estava maioritariamente ocupado pelos stands dos fabricantes de automóveis, que vão até à Retromobile tirar proveito do potencial de marketing do respectivos legados, montando exposições temáticas com muitos modelos do passado e, pelo meio, umas ou duas das mais recentes novidades da sua gama. Claro que, em Portugal, qualquer visitante ficaria chocadíssimo por ver um automóvel actual num salão de clássicos, mas quando o único automóvel actual é o estímulo para a marca investir milhares a montar uma exposição com a sua história, então vale a pena.
DS, onde o passado é tudo.
A DS tem um novo modelo, de seu nome DS7. Como quase todos os SUV da actual geração, é um produto semelhante a tantos outros, que tem dificuldades em lutar pela diferenciação e o apelo histórico acaba por ser providencial.
Como tal, a marca montou uma exposição que celebrou os mais importantes modelos... da Citroën, ao serviço oficial do Estado francês. Presente estava um dos DS21 que estiveram ao serviço do General De Gaulle, automóvel a que se manteve fiel, especialmente depois de um lhe ter salvado a vida no atentado de Petit-Clamart. Também na exposição estava o imponente Citroën DS Presidentielle, modelo carroçado pela Chapron e que, apesar da aparência semelhante ao DS, não partilha quase nada com este, sendo muito maior (6,53m), mais alto e espaçoso, com um enorme vidro côncavo a separar o motorista dos passageiros, detalhe de que Charles de Gaulle não era adepto, o que motivou o escasso uso deste exemplar.
Também presente esteve o exuberante Citroën SM descapotável, um de dois encomendados por Georges Pompidou, e que teve a honrosa tarefa de transportar a Rainha Isabel Segunda, numa visita oficial a Paris em 1972.
Citroën, uma lição sobre futurismo
Mais interessante ainda era a exposição da casa-mãe, Citroën, que cativou sobretudo pelos emblemáticos concept-cars expostos. O mais marcante e significativo de todos era o protótipo do 2CV, de 1939. Este exemplar restaurado era o único sobrevivente conheciso dos 250 produzidos, todos eles destruídos para que os invasores alemães não conhecessem os planos e não os utilizassem para fins militares. Contudo, em 1995 foram descobertos outros três exemplares escondidos no “gabinete de estudos” em Ferté-Vidame. O exemplar esteve exposto com a cesta de ovos no banco traseiro, que faz parte da história do modelo.
Presente esteve também o extraordinário C10 de 1956, um pequeno utilitário aerodinâmico, em forma de gota, com habitabilidade para quatro ocupantes. Com carroçaria de alumínio, janelas em acrílico e suspensão hidropneumática, é movido pelo motor do 2CV e pesa apenas 382kg.
Expostos estiveram também o concept Activa e o mais recente Elo mas, para nós, o grande destaque foi o exuberante Karin, o “carro pirâmide”, de três lugares e posição central. Desenhado por Trevor Fiore, este modelo construído em compósito previa também o uso de suspensão hidropneumática.
Templo GTI
A Peugeot levou até à Retromobile o seu novíssimo 208 E-GTI. Apesar de esteticamente atraente, com muitas piscadelas de olho ao passado, nas siglas, jantes e outros detalhes cosméticos, todos sabemos o quão difícil é para as marcas convencerem os entusiastas de que um EV pode ser desportivo ou excitante.
O esforço mais bem-sucedido até à data é o da Alpine, e Sochaux segue o exemplo, evocando com toda a força o espírito do 205 GTI, com uma mostra espectacular, que além de reunir todas as versões do GTI e CTI, incluindo edições especiais, juntava ainda o Turbo 16 e um exemplar imaculado transformado pela Dimma, com o tradicional “wide-body”.
Destaque para o imenso merchandising à venda no stand, em torno do tema 205 GTI.
Ode aos pequenos desportivos
O outro gigante francês, a Renault, trouxe à Retromobile o seu novo Clio, sujo maior cartão de visita não será o seu aborrecido desenho, mas antes a lista de antepassados.
A marca puxou dos galões e levou a Paris um extraordinário conjunto de exemplares históricos que incluíam o primeiro exemplar produzido do Clio Williams, um Clio Sport 172, o Clio V6 e ainda os ícones dos ralis, como o Clio Williams e o Clio Maxi de Ragnotti, além das gerações posteriores.
A Renault aproveitou também o salão para promover a sua linha de componentes e acessórios para os seus veículos clássicos.
Num stand à parte estava a Alpine, com um bonito A110 SC verde, um Gr.4 de fábrica e aquele que é talvez o desportivo mais caro e especial alguma vez produzido pela marca, o A110 R Ultime.
Alemães e derivados
A Volkswagen usou a Retromobile para celebrar a história do Golf GTI no seu 50º aniversário. No seu espaço estavam representadas todas as gerações e mesmo algumas versões raras, mas infelizmente, quase todos em cores escuras, que não resultavam no impacto merecido. Forte contraste, portanto, com o show da marca “irmã”, a Skoda, cujo espaço era realmente especial, com um Fabia WRC “cortado ao meio”, um Skoda 130RS de Grupo 2, e ainda outros ícones de competição da marca.
Também da Alemanha, a Porsche montou um espaço onde os modelos modernos tinham talvez demasiado protagonismo, deste o GT3 Touring ao Cayenne eléctrico, mas compensava com dois belos “monstros”: o 919 Hybrid que a equipa Porsche Marc Lieb, Romain Dumas e Neel Jani levou à vitória em Le Mans em 2016 e o 924 GTR, um dos três que alinharam na mesma prova em 1982, movidos por um motor 2.0 Turbo de 375cv.
Tesouros do sol nascente
As duas marcas japoneses presentes não poderiam ter missões e impactos mais distintos na sua participação na Retromobile. Para a Honda, o objectivo era o de promover o muito pouco convincente Prelude, marcado pelo design amorfo e pela caixa CVT, trazendo consigo um exemplar do primeiro Prelude e também um outr a da série BA, o primeiro modelo de grande produção com quatro rodas direccionais.
Já a Mazda, dispensou levar a Paris qualquer modelo da gama actual. Apesar do muito material promocional do MX-5, a marca optou por promover o legado do motor rotativo com três exemplos muito especiais: o elegante Cosmo, o primeiro RX-7 e o monstruoso RB717 vencedor de Le Mans em 1991, que estava constantemente rodeado de fãs de todas as idades, mas sobretudo dos mais jovens, provando o impacto cultural de uma vitória inesperada na mais importante corrida do mundo.
(Continua)
























