Morreu Alessandro Fiorio
Fotos: Motorsport e Wikipedia (direitos reservados)
É com consternação que o mundo dos ralis e seus entusiastas estão a receber a notícia da morte de Alessandro Fiorio, o carismático piloto, que teve várias presenças no rali de Portugal ao longo dos seus mais de 50 ralis do Mundial.
Sempre bem-disposto e muito activo nas redes sociais, o ex-piloto anunciou publicamente há pouco mais de um mês, que tinha sofrido uma infecção respiratória que o fragilizou durante os seus tratamentos. Chega agora a notícia de que não superou essa infelicidade.
Em baxo deixamos um resumo histórico da sua carreira, com base no trabalho da SnapLap e Motorsport.
Alessandro “Alex” Fiorio, nascido em Turim, Itália, a 10 de Março de 1965, foi um dos mais destacados pilotos de ralis italianos da sua geração. Filho de Cesare Fiorio, uma das figuras mais importantes da história do automobilismo italiano e responsável pelo programa de ralis da Lancia durante os seus anos de maior sucesso, Alex construiu, contudo, uma carreira própria, chegando a ser vice-campeão do Mundo de Ralis em 1989.
Fiorio iniciou a sua carreira automobilística em 1985, depois de uma passagem pelo esqui de competição, modalidade na qual chegou a conquistar o título italiano de Descidas. A sua estreia nos automóveis aconteceu no Campeonato Italiano Fiat Uno, que venceu logo no primeiro ano, perante mais de 80 concorrentes. No ano seguinte chegou ao Campeonato do Mundo de Ralis, integrado no Jolly Club, a equipa privada que funcionava como estrutura “B” da Lancia.
A estreia no Mundial
Em 1986, Fiorio disputou cinco provas do Campeonato do Mundo ao volante de um Fiat Uno Turbo Grupo A. As primeiras quatro terminaram em abandono, mas no Rali de Sanremo conseguiu chegar ao sétimo lugar. Contudo, a polémica desclassificação das equipas Peugeot levou posteriormente a FIA a anular os resultados da prova, pelo que Fiorio acabou por não receber os pontos correspondentes.
A sua afirmação internacional aconteceria em 1987. Ao volante de um Lancia Delta HF 4WD Grupo N, novamente preparado pelo Jolly Club, venceu três provas na categoria de produção e conseguiu outros três pódios. Tornou-se assim o primeiro vencedor da Taça FIA de Grupo N, antecessora do campeonato mundial de produção. Ao seu lado esteve, desde o início da carreira, o navegador Luigi Pirollo.
Ainda em 1987, no Rali de Sanremo, Fiorio passou para um Delta HF 4WD de Grupo A. A partir daí começou a competir regularmente contra os melhores pilotos oficiais da Lancia.
1988: a afirmação entre os melhores
A temporada de 1988 marcou a verdadeira consagração de Alex Fiorio. Ao volante do Lancia Delta HF 4WD e, posteriormente, do novo Delta Integrale, conquistou cinco pódios no Mundial.
Foi segundo no Rali de Monte Carlo, resultado que constituiu o seu primeiro pódio absoluto no WRC, e repetiu a segunda posição nos ralis de Portugal, Olympus e Sanremo. No Rali da Acrópole terminou em terceiro.
Curiosamente, em todas as quatro segundas posições foi batido por pilotos oficiais da Lancia. A marca italiana dominava então o Mundial e conquistaria o título de construtores durante seis anos consecutivos, entre 1987 e 1992.
No final da temporada, Fiorio terminou terceiro no Campeonato do Mundo de Ralis, apenas atrás dos pilotos oficiais da Lancia Miki Biasion e Markku Alén.
1989: vice-campeão do Mundo
O início da temporada de 1989 ficou tragicamente marcado pelo Rali de Monte Carlo. Ao volante do Lancia Delta Integrale do Jolly Club, Fiorio perdeu o controlo do automóvel e saiu da estrada, atingindo espectadores. O acidente provocou a morte de duas pessoas: o piloto sueco Lars-Erik Torph e o seu navegador Bertil-Rune Rehnfeldt. Fiorio e Luigi Pirollo saíram ilesos.
Apesar do enorme impacto do acidente, Fiorio conseguiu recuperar e protagonizou uma das melhores temporadas da sua carreira.
Foi terceiro no Rali de Portugal e na Acrópole, e terminou em segundo no Rali da Argentina e no Rali de Sanremo, sempre atrás de pilotos oficiais da Lancia.
No final do campeonato, somou quatro pódios e terminou segundo no Campeonato do Mundo de Ralis, atrás de Miki Biasion e à frente de Juha Kankkunen, então piloto oficial da Toyota. Foi o ponto mais alto da sua carreira no WRC.
1990: o último pódio no Mundial
Em 1990, já com a nova evolução Lancia Delta Integrale 16V, Fiorio dividiu a sua actividade entre o Jolly Club e a equipa oficial Martini Lancia.
No Rali da Austrália conseguiu o último pódio da sua carreira no Campeonato do Mundo, terminando em terceiro, atrás do seu novo companheiro de equipa Juha Kankkunen e do Toyota de Carlos Sainz.
No final da temporada disputou o RAC Rally ao volante de um Ford Sierra RS Cosworth 4x4 da Q8 Team Ford, terminando em nono, posição que também ocupou na classificação final do campeonato.
Ford, Lancia e o domínio no Rali do Chipre
Em 1991 continuou com o Ford Sierra RS Cosworth 4x4, participando em quatro provas do Mundial. O nono lugar no Rali de Sanremo foi o seu melhor resultado.
No ano seguinte regressou à Lancia, desta vez integrado na Astra Racing, com um Delta Integrale. Disputou quatro provas do Mundial e duas do Campeonato da Europa, tendo como novo navegador Vittorio Brambilla.
No WRC, os seus melhores resultados foram dois quartos lugares, na Argentina e na Catalunha. No Europeu, porém, voltou às vitórias, triunfando na Volta Galp e no Rali do Chipre.
A vitória no Chipre seria particularmente importante. Fiorio repetiu o triunfo em 1993 e voltou a vencer em 1994, conseguindo assim três vitórias consecutivas no Rali do Chipre.
Em 1993, no Mundial, o seu melhor resultado foi o quinto lugar no Rali da Catalunha. Em 1994 disputou apenas duas provas do WRC: abandonou o Rali de Portugal com um Ford Escort RS Cosworth e foi quarto na Acrópole, com um Lancia Delta HF Integrale.
Em 1995 fez apenas uma prova do Mundial, novamente em Portugal, terminando em oitavo com um Ford Escort RS Cosworth.
Fora do Mundial
Entre 1996 e 1999, Fiorio esteve afastado do Campeonato do Mundo.
Em 1996 e 1997 competiu no campeonato italiano ao volante de um BMW 318is, terminando em segundo na classificação de duas rodas motrizes em 1996.
Em 1998 regressou ao Campeonato da Europa de Ralis com um Ford Escort RS Cosworth do Jolly Club. Venceu dois ralis — Albena, na Bulgária, e Turquia — terminando a temporada no 12.º lugar do campeonato.
No ano seguinte disputou três provas do Europeu com um Ford Escort WRC.
Regresso ao Mundial e Mitsubishi
Fiorio regressou ao WRC em 2000 para disputar o Rali de Sanremo com um Mitsubishi Carisma GT Evo VI Grupo N, terminando no 23.º lugar.
Em 2001 continuou a competir com a Mitsubishi nos campeonatos italiano e europeu. Voltou a Sanremo para a prova do Mundial e terminou em 17.º da geral, mas venceu a categoria N4.
Em 2002 disputou uma temporada completa no Production World Rally Championship, integrado na Ralliart Italia. Ao volante de um Mitsubishi Lancer Evolution VII, conseguiu uma importante vitória na categoria de produção no Rali da Finlândia e terminou o campeonato em quinto.
Foi a última temporada completa de Alex Fiorio no Campeonato do Mundo.
Depois do Mundial
Depois de 2002, Fiorio afastou-se novamente do WRC, mas não abandonou definitivamente os ralis. Continuou a participar esporadicamente em provas italianas e internacionais.
Em 2003 teve uma das suas últimas temporadas de maior actividade, terminando em quinto no campeonato italiano ao volante de um Subaru Impreza STI. Em 2005 participou no Trofeo Rally Terra italiano com um Mitsubishi Lancer Evolution VIII.
Nos anos seguintes passou a marcar presença sobretudo em eventos históricos, ralis de demonstração e encontros dedicados aos automóveis de competição, incluindo o Rallylegend e o Monza Rally Show.
Um dos grandes nomes da era dourada da Lancia
Alex Fiorio nunca venceu uma prova do Mundial de Ralis à geral, mas os seus números explicam a importância que teve na modalidade: 51 participações no WRC e dez pódios, incluindo o terceiro lugar no campeonato de 1988 e o histórico segundo lugar de 1989.
A sua carreira ficou particularmente ligada aos Lancia Delta HF 4WD e Delta Integrale do Jolly Club, numa época em que a Lancia dominava completamente o Mundial. Embora nunca tenha tido o estatuto de piloto oficial principal da marca, Fiorio conseguiu, por diversas vezes, colocar o seu Delta privado entre os melhores carros do Mundo.
A sua história é também inseparável da de Cesare Fiorio, mas Alex construiu uma identidade própria: um piloto extremamente rápido, versátil e consistente, capaz de competir ao mais alto nível em diferentes máquinas e equipas, e uma das figuras que melhor representam a extraordinária geração de pilotos que marcou a era dourada dos ralis no final dos anos 80 e início dos anos 90.






