Mercer Raceabout, o veterano "lightweight"
Texto e fotos: RM Sotheby's
À primeira vista, o Mercer Raceabout de motor T-head, um automóvel americano icónico da Brass Era, parece uma escolha pouco óbvia para a Colecção de Sam e Emily Mann, tão fortemente centrada em automóveis grandes, potentes, de linhas exuberantes e personalidade vincada. Um Mercer, pelo contrário, é um pequeno motor de pouco mais de 330 polegadas cúbicas montado sobre um chassis com uma coluna de direcção e dois bancos. Não só existem muito poucas curvas sensuais num Mercer, como, na verdade, há muito pouco automóvel. E era precisamente esse o objectivo.
Nos primeiros anos do automóvel, quando a forma habitual de obter melhores prestações passava por aumentar sucessivamente a cilindrada dos motores, o engenheiro Finley Robertson Porter seguiu um caminho diferente. O seu motor T-head de quatro cilindros, com admissão e escape em fluxo cruzado (cross-flow), desenvolvia uns extraordinários 60 cavalos de potência a partir de pouco mais de 300 polegadas cúbicas. No entanto, as capacidades quase sobrenaturais do Mercer em estrada e nos circuitos de tábuas (board tracks) deviam-se sobretudo ao seu reduzido peso. Era mais pequeno, sim, mas também muito mais ágil — quase de forma surpreendente — e extraordinariamente mais fácil de conduzir do que as máquinas excessivamente motorizadas contra as quais competia. Não admira, por isso, que fosse extremamente difícil de bater, tanto em competições oficiais como em disputas informais, enfrentando adversários lendários como os Stutz Bearcat e os National.
Em suma, representava o expoente máximo da engenharia e do desenho automóvel da sua época, num grau apenas comparável ao dos hipercarros actuais. Antes da fibra de carbono e do Kevlar, havia apenas dois bancos tipo baquet — e pouco mais.
O AUTOMÓVEL DOS ENTUSIASTAS
Quando a produção do Mercer T-head terminou, em 1914, os historiadores da Mercer Associates estimam que tinham sido construídos apenas cerca de 1.830 exemplares, dos quais menos de um quarto eram versões Raceabout.
O Raceabout da colecção Mann é um 35-J de produção tardia, registado pela Mercer Associates como o mais recente exemplar conhecido do ano-modelo de 1913. Foi, por isso, equipado de origem com a muito desejada caixa manual de quatro velocidades.
A sua história pôde ser documentada até Julho de 1939, quando foi adquirido por Paul Cadwell, de West Warwick, Rhode Island, um dos primeiros grandes entusiastas do automobilismo histórico e, na época, primeiro vice-presidente do Veteran Motor Car Club of America. Na edição de Abril da revista The Bulb Horn, Cadwell anunciou a aquisição de um «Mercer Raceabout». Segundo a correspondência do falecido David Brownell, que investigou o historial do automóvel para Sam Mann, este foi comprado numa garagem onde se encontrava armazenado, na presença do pioneiro coleccionador Smith Hempstone Oliver, que mediou as negociações entre comprador e vendedor para a então considerável quantia de 62,50 dólares.
Paul Cadwell acabaria por vender o Mercer — acredita-se que por volta de 1943 — ao seu contemporâneo Webster Knight II, herdeiro do império de roupa interior Fruit of the Loom e uma das figuras mais importantes do coleccionismo automóvel americano nas suas primeiras décadas, vindo posteriormente a reunir numerosos e extraordinários automóveis da Brass Era. O Mercer surge registado em nome de Knight nas edições de 1954 e 1957 do registo oficial do Antique Automobile Club of America, correctamente identificado como um «Raceabout».
Após alguns anos de utilização, Webster Knight vendeu os seus dois Mercer Raceabout — este automóvel e um modelo anterior de 1911 — a Ed Saczawa, de Manchester, Connecticut. Depois do falecimento deste, a viúva vendeu o Raceabout de 1913 a Burt Upjohn, de Kalamazoo, Michigan, investidor imobiliário e destacado filantropo local, que então reunia uma pequena mas criteriosa colecção de automóveis da Brass Era e dos chamados Full Classics. O Mercer permaneceu como uma das peças centrais da colecção Upjohn durante o resto da vida do seu proprietário.
No final da década de 1990, Sam Mann participou num evento automóvel no Norte da Califórnia e foi convidado a dar um passeio num Mercer Raceabout T-head pertencente a um amigo. Ficou completamente rendido à experiência — uma reacção comum a praticamente todos os que conduzem um Mercer pela primeira vez — e decidiu procurar um exemplar semelhante para si.
Como tantas vezes parece acontecer com os automóveis que acabam por integrar a colecção Mann, o acaso voltou a intervir: precisamente nessa altura, a família Upjohn preparava-se para vender o seu Raceabout, que foi adquirido para a colecção em Agosto de 1999. Numa carta dirigida ao amigo que facilitou a transacção, Sam Mann descreveu, com evidente entusiasmo, a sua nova aquisição como sendo «dolorosamente original».
Muito admirado e respeitado pelos maiores conhecedores da marca, o Raceabout da colecção Mann não só possui a desejável especificação com caixa de quatro velocidades, como é também um automóvel excepcionalmente preservado. Conserva ainda a pintura antiga que o acompanha praticamente durante toda a sua conhecida vida enquanto automóvel de coleccionador, exibindo uma rica e acolhedora pátina.
Uma inspecção detalhada confirma que o motor e a caixa de velocidades mantêm os números originais nas respectivas localizações, bem como o número original do chassis gravado na travessa traseira.
Na verdade, acredita-se que o automóvel seja mecanicamente totalmente original, com excepção apenas do eixo dianteiro, substituído há alguns anos por um componente proveniente de um modelo de 1912, de desenho ligeiramente diferente. No entanto, o eixo dianteiro original permaneceu durante anos nas reservas do conhecido especialista Mercer Fred Hoch, tendo Sam Mann conseguido adquiri-lo posteriormente. Esse componente acompanhará agora o Raceabout para o seu novo proprietário.
Ao longo dos anos foram igualmente efectuadas intervenções mecânicas, incluindo a reconstrução do motor em 2007 e outros trabalhos realizados pela Zakira's Garage, no Ohio, cujas facturas acompanham o automóvel. Mais recentemente, o Mercer recebeu um novo conjunto de pneus em preparação para a venda.
Os proprietários de Mercer, tal como os de Bugatti ou dos Bentley concebidos por W.O. Bentley, são conhecidos por conduzirem os seus automóveis com entusiasmo e espírito desportivo. Os Mann constituem um excelente exemplo dessa tradição, tendo desfrutado do seu Raceabout em inúmeras excursões e ralis por todo o país ao longo de mais de três décadas de propriedade.
O automóvel participou em oito ou nove edições da Mozart Tour, bem como num rali organizado pelos Friends of Ancient Road Transportation e em numerosas viagens na região de Englewood. Também conquistou o público nas suas ocasionais presenças em concursos de elegância, nomeadamente na classe Prewar Preservation do Pebble Beach Concours d'Elegance de 2016.
Bem conhecido na restrita comunidade de entusiastas Mercer, foi igualmente apresentado e conduzido em diversos encontros da marca, destacando-se a Mercer Reunion de 2016, realizada em Trenton, New Jersey, precisamente no local onde outrora se situava a fábrica da Mercer.
Este Mercer vai agora a leilão no dia 15 de Agosto em Monterey, com uma estimativa entre os 2.750.000 e o 3.500.000 de dólares.















