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Peixinho, o Maior!

Foram 90 anos vividos no "redline". O campeão de quem tive a honra de ser amigo, não morreu. Cortou a meta.
Hugo Reis
14 de fev. de 2026

Os ingleses têm aquela bonita expressão, “Larger than life”, que traduzida à letra significa “Maior do que a vida”, mas é usada para definir personalidades cujo impacto no mundo e as suas vivências vão muito para além do que parece caber no tempo e no espaço de uma vida humana. Mesmo uma com 90 anos.

É a primeira expressão que me assoma quando penso no António. Apesar de carregar um grande legado, o apelido Peixinho soava quase irónico, para alguém que viveu a vida como um verdadeiro tubarão: rápido, astuto, com uma fome de emoções e de momentos. Alguém que apanhava tudo que queria, à custa dum misto de charme, piada e persistência (ou uma grande lata, em bom português). Como piloto, tinha talento de sobra, mas foi por ter mais do que isso que contou com forte suporte de grandes marcas ao longo sua carreira e que logrou levar em diante a ideia audaz do Autódromo de Luanda.

Graças a um misto de ajudas dos amigos José Correia Guedes, José Mota Freitas e Francisco Lemos, em 2016 o António começou a escrever crónicas para a Topos & Clássicos, acerca das suas vivências nos automóveis e nas corridas. Foi um privilégio para um editor novato como eu, mas foi um privilégio maior o que se construiu fora do papel. O António passou a ser uma companhia assídua, com longuíssimas conversas telefónicas onde me contava aquilo que não devia contar no papel, embora muitas vezes quisesse e eu tivesse de o convencer do contrário. 

Além disso contava muitas outras histórias conhecidas, mas com detalhes preciosos e língua afiada. As travessuras, os segredos, as opiniões acerca dos outros que, em 99% dos casos, eram de afecto, mesmo se tivesse tido conflitos com eles. É assim quando se está “de bem com a vida”, como se diz do outro lado do oceano. Tinha muito orgulho de ter entre os seus maiores amigos, vários dos seus mais fortes rivais.

Pelo meio falávamos de tudo: da condução de cada um dos ícones que conduziu, de carros de estrada, da família, do Aramis, o pastor belga que o António dizia orgulhosamente ser, além da sua mulher, o único animal mais inteligente do que ele. De tal forma que um dia recebi no correio um postal “escrito pelo Aramis”, em que fazia queixas do dono e me mandava cumprimentos a dizer que era ela que escrevia as crónicas. Do outro lado, está a foto “do autor”. 

Era um provocador nato. Em 2017, estivemos juntos no final do Rally ACP Clássicos, em que navegou o amigo, Cmdt. José Correia Guedes. Conheceu nesse dia a minha mulher, que lhe deu boleia a casa. Ainda antes de sair do carro, o António ligou-me: "Você não tem qualquer hipótese. Isto não vai durar nada que ela é boa demais para si e facilmente arranja melhor!".

Mais divertidos, só os frequentes telefonemas relâmpago em que nem “olá” dizia e começava: “Uma vez um alentejano foi ao médico...” e assim que acabava a anedota mais absurda ou indecente possível, terminava com: “Pronto. Era só isto. Até logo!” e desligava rapidamente antes mesmo de eu parar de rir. 

E muito me honrou o António quando decidiu que apanharia o comboio para o Porto de propósito para me vir visitar ao stand da Topos & Clássicos no autoClássico, apesar de, na altura, as pernas já estarem bem cansadas. Com a ajuda do grande Ângelo Pinto da Fonseca, lá veio dizer as suas piadas, tirar fotos com os imensos fãs que o reconheciam e ainda dar uns autógrafos. 

Fosse através do telefone, ou quando entrava numa sala, o António transformava imediatamente o dia das pessoas, sempre com considerável alvoroço. Era sempre o mais alegre, o mais provocador, o mais desbocado. A palavra “carisma” foi inventada para pessoas assim. 

Poucos temos a sorte de chegar aos 90 anos, mas acho que nos 90 dele, o António viveu uns 250, tal foi a diversidade de e intensidade das experiências que teve e o número de sonhos que concretizou. Por isso, acho que não se pode olhar para a sua partida como uma tristeza, mas como mais uma linha de meta cruzada e uma vitória.

É-me difícil conceber a existência dum além para onde vão aqueles que partem, mas se esse lugar existir, nunca mais vai ser o mesmo. Talvez agora seja até mais divertido do que o lado de cá!

E se um dia eu lá for parar nada temo, pois tenho um amigo para me fazer rir.

Até sempre, António!