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50ª Retromobile: a luz que não esmorece. - Parte 1

Estivemos presentes nesta histórica edição para lhe trazer as imagens, os números e as sensações.
Hugo Reis
18 de fev. de 2026

A 14 de Outubro de 1899, a revista americana Literary Digest vaticinou: “A carroça sem cavalos é, actualmente, um luxo para os ricos e nunca terá um uso generalizado”. Esta profecia envelheceu mal e muito rapidamente, mas não foi a única. Há mais de dez anos que se ouve dizer em vários contextos que o automóvel clássico está condenado, e que num mundo cada vez mais condicionado por medidas ambientais e a caminho da condução autónoma. A evidência de que o movimento dos automóveis antigos e coleccionáveis é demasiado grande, demasiado robusto e demasiado valioso para algum dia ser extinto ou travado, está precisamente na Port de Versailles, todos os anos, aos olhos de quem quiser ver. 

Este ano foram 181.500 pessoas (um crescimento de 24%) que quiseram e puderam constatar que a Retromobile continua a crescer ao fim de 50 anos, tendo tido em 2026 umas das melhores edições de sempre, como seria de esperar.

A zona principal da exposição foi acolhida por um renovado Hall 7, dividido em três vastos andares, e estendendo-se ainda ao Hall 4 que, além da habitual área dedicada à venda de automóveis abaixo dos 30.000€, incluía uma novidade, que podia ser visitada à parte: o Ultimate Supercar Garage reuniu quase todos os fabricantes de automóveis superdesportivos, com as suas novidades e ícones.

Além das já referidas, o salão é composto por diferentes áreas: espaço dos clubes, zona de peças e automobilia, galeria dos artistas, stands de fabricantes de automóveis com exposições temáticas alusivas à sua história, zona dos grandes comerciantes de clássicos e o espaço do leilão oficial. Cada uma, isoladamente, daria um evento de referência, por isso, vamos por partes.

Clássicos até 30.000€

Esta secção foi criada para dar um sabor do “mundo real”, num salão em que a maioria dos automóveis presentes pertence ao universo da fantasia, para a maioria dos visitantes. Uma ideia muito boa e com uma adesão de expositores que tem vindo a crescer. Dentro das muitas dezenas de automóveis ali presentes, alguns destacavam-se. Por entre a natural predominância dos automóveis franceses, saltava à vista um Peugeot 205 GTI com carroçaria Dimma. Esta empresa ficou famosa nos anos 80 e 90 por vender kits estéticos que permitiam dar uma aparência mais “musculada” a modelos desportivos dos fabricantes franceses. No meio do revivalismo, os exemplares transformados pela Dimma parecem estar a ter cada vez mais atenção dos entusiastas. 
De entre os franceses, uma menção para a cada vez maior presença a preços mais elevados, dos Citroën CX. Muito popular em Portugal foi o Peugeot 106 XSI, onde era vendido com o motor 1.3 do Rallye e um interior mais luxuoso, em pele e “Alcantara”. Em França, o mais próximo que existiu foi o XSI Le Mans, neste caso com o motor 1.4. O valor pedido por um exemplar razoável era de 11.900€. 
 

Os italianos estavam também muito bem representados, sendo obrigatória a menção dum fascinante Fiat 125 Samantha, o Coupé de carroçaria Vignale. Esta unidade podia ser comprada por 14.000€, mas a necessitar de um restauro completo.  

Outro coupé exótico de sangue italiano era o Neckar St. Trop, baseado no Fiat 1100, mas com uma elegante carroçaria OSI. Este exótico raro e bem-apresentado, podia ser adquirido por 28.000€.

Uma nota para a forte presença dos Suzuki Santana e Samurai, modelos de culto ainda acessíveis, com preços a começar nos 7000€.

Todos sabemos que os Twingo estão na moda, mas só em França seria provável encontrar um dos raros exemplares da versão Lecoq, limitada a 50 unidades. Os 28.500€ pedidos reflectiam e garantiam a exclusividade.
 

EXPOSIÇÕES TEMÁTICAS

Os insólitos da Bugatti
Um dos pontos forte da Retromobile, como de qualquer salão, são as exposições temáticas e, este ano, uma das mais aguardadas era aquela dedicada à Bugatti. A peça central, contudo, não era um automóvel. A automotora de luxo concebida pela Bugatti, nasceu duma ideia do então director da ETAT, a companhia de caminhos de ferro do estado francês. Apesar do insucesso comercial os números do Bugatti Royale eram conhecidos, nomeadamente a notável performance do motor de oito cilindros. Daí surgiu a proposta de criar a automotora movida por quatro motores do Royale, com 200cv cada um. Isso permitia a esta invulgar e aerodinâmica criação, atingir os 196km/h (para desagrado de Ettore Bugatti, que desejava passar a meta dos 200km/h. A velocidade de cruzeiro em utilização normal era, no entanto, de 140km/h. Lamentavelmente, das 88 unidades produzidas, apenas resta a que esteve em exposição na Retromobile. Para se ter noção do significado desta presença, o camião que transportava a automotora foi escoltada até Porte de Versailles por uma concentração de Bugattis e percorreu quatro voltas ao arco do triunfo para que a população e os entusiastas pudessem ver e fotografar este autêntico monumento nacional. 

A exposição, que só foi possível graças ao Musée National de l’Automobile, em Mulhouse, foi montada com especial requinte, graças a uma instalação luminosa só com recurso a lustres históricos da Mathieu Lustrerie. Debaixo deles estavam alguns dos mais importantes e raros modelos da história da marca, mas o grande destaque vai, naturalmente para os mais exóticos. Presente estava, uma vez mais, o T32 Tank, o modelo aerodinâmico que fez história pelo aspecto invulgar, mas também um outro exemplar de competição extraordinário, o T251 de 1955, criado por Gioacchino Colombo, e que foi o primeiro carro com motor transversal em posição central. 

Também ele único, o Type 64 foi um modelo desenvolvido já sob a égide Jean Bugatti, para suceder ao Type 57. O único exemplar completo recebeu uma carroçaria Gangloff aerodinâmica, de acordo com os requisitos técnicos de Jean Bugatti. Esse exemplar permanece conservado com as marcas do tempo. 

Entre os modelos menos conhecidos, destaque também para a presença do Type 73 Coupé de 1947, o modelo que pretendia lançar uma nova entrada de gama no pós-guerra, mas que se ficou pelo exemplar exibido. Também o Bugatti Type 101, o último modelo produzido pela Bugatti Molsheim, esteve representado com os dois exemplares do museu de Mulhouse.

O espólio Macaluso

O nome de Gino Macaluso chegou à ribalta no meio automóvel através do seu papel como navegador do piloto Raffaele Pinto, aos comandos dos Fiat 124 Abarth oficiais, chegando ao título de Campeão Europeu. Prosseguiu depois uma sóldia carreira no mundo da alta relojoaria que lhe permitiu tornar-se proprietário duma das mais relevantes colecções de automóveis de ralis do mundo, com dezenas de exemplares com excelente historial. 

Muitos deles estiveram na Retromobile, na mostra “L’âge d’or du Rallye”, cobrindo diferentes épocas, desde a génese da modalidade até ao Gr. A e mais além. Lancia Fulvia Coupé HF, Mini Cooper S, Ford Cortina Lotus, Alpine A110, Renault 5 Turbo, Fiat-Abarth X1/9 Prototipo, Lancia Stratos, 037 e Delta Integrale, além dos Audi Quattro, Peugeot 205 Turbo 16, eram alguns dos modelos representados, alguns deles exemplares com vitórias no WRC.

No espaço da exposição houve também com uma tertúlia com a presença de Ari Vatanen.

King of Cool

Como é evidente ara os fãs do cinema e não só, a carreira de Steve McQueen foi marcada pela profunda paixão pelos veículos motorizados e a Retromobile prestou homenagem ao ícone com uma exposição temática que reuniu muitas das máquinas que fizeram parta da sua vida dentro e fora dos ecrãs. Entre as motos, destaque para a Husqvarna 400 Cross, a Honda 250 SEM e as várias Triumph “scrambler”, em particular a Triumph Rickman Métisse.

Entre os automóveis expostos estava o Triumph TR6 usado no “Great Escape”, um Ferrari 250 GT Lusso (que não o seu) e os Ford Mustang Fastback e Dodge Charger usados na famosa perseguição de “Bullitt”.

50 anos de BMW Art Cars

Este era, sem dúvida, o “ex-libris” da edição deste ano da Retromobile. Nos 50 anos do salão, houve lugar à celebração dos 50 anos dos BMW Art Car. Esta extraordinária “colecção”, teve como precursor o piloto e leiloeiro Hervé Poulain, ao decorar o seu BMW 3.0 CSL “Batmobile” com uma pintura encomendada a Alexander Calder. 

Naturalmente, esse era o modelo em destaque nesta mostra, que contava ainda com vários dos mais emblemáticos exemplares: o CSL por Frank Stella, o 320i Gr.5 por Lichtenstein, o M1 Gr. 4 por Andy Warhol (o único pintado directamente na carroçaria pelo artista), o V12 LMR por Jenny Holzer, o M3 E92 GT2 por Jeff Koons e o Hypercar M Hybrid V8 por Julie Mehretu. 

(CONTINUA)